quarta-feira, 15 de junho de 2016

UMA VIAGEM AO PASSADO

Eu sou um passageiro clandestino. Viajo secretamente até ao passado em veículos que encontro abandonados por este país fora. Não é preciso combustível, não há necessidade de os mandar ao mecânico, nem sequer pagam imposto de circulação, mas eles estão em todo o lado e prontos a partir. Os seus donos abandonam-nos às centenas de milhar por este país fora mas a maioria das pessoas passa por eles sem reparar. Apesar de muitos deles serem enormes, belos e de possuírem linhas "vintage", é fácil de admitir que são viaturas fora de moda e que o lixo, as silvas, os escombros ou até os portões e os muros que os separam de nós, os escondem à vista de todos. Conduzir esses veículos até ao passado é o meu vício e um dia destes, temo eu, a minha némesis. Esses veículos são os edifícios abandonados que existem neste país.






















Unidades industriais, sanatórios, hospitais, teatros, centros comerciais, mansões, palacetes, solares, casas senhoriais e até troços de auto-estrada com praça de portagem e estações de rádio naval. Portugal, um país de parcos recursos, possuí uma quantidade quase inesgotável de edifícios abandonados prontos a deixarem-se conduzir até ao passado numa viagem de descoberta de toda a sua beleza escondida. 





Os portugueses, que choram e barafustam porque sobra mês no fim do dinheiro, adoram dar ares de novo-riquismo abandonando as pérolas do seu passado e construindo exactamente ao lado, lindos mamarrachos de mau gosto pois é preciso impressionar o vizinho e recuperar uma mansão dos anos 20 do século passado sempre sai mais caro do que construir uma nova maison em estilo “modernaço”, que é como quem diz, copiada de uma qualquer revista de decoração mas em versão low cost e com materiais da loja do chinês. Perdeu-se a técnica dos antigos mestres pedreiros, canteiros, funileiros e carpinteiros. A beleza das antigas expressões artísticas apuradas ao longo de séculos morreu mas ao menos a prima não se fica a rir.




Não se fica a prima a rir nem fico eu, mas até do abandono e da ruína é possível retirar horas de prazer re-descobrindo as histórias que se escondem dentro de pequenas casas, grandes mansões e enormes fábricas de cortiça ou de papel. 




Por trás de cada muro a cair há uma história por contar, sob um belo telhado de quatro águas totalmente arruinado há pessoas e passados que vale a pena conhecer. É a história desses muros, desses telhados, dessas pessoas, desses passados que recolhi ao longo das minhas viagens nesses locais exóticos que pretendo contar neste blog. 






Sejam bem vindos e cuidado com aquele grande buraco no soalho à esquerda.















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